A essência do Design Gráfico : Parte 1

Os conceitos de design gráfico

Para um cego a linha contínua é uma grande interrogação. Onde termina? (AFLALO, 2002)

A atividade do design surge como uma das que tem acumulado o maior número de tentativas de conceituação. As inúmeras definições que têm circulado revelam que, passados quase um século de seu surgimento, a atividade continua polêmica e pouco conhecida. Arte, prática de projeto, maquiagem de produtos, interdisciplinaridade, marketing, imagem, marca. O design tem sido isso tudo dependendo do viés intelectual de quem o aborde.

Lucy Niemeyer (1998) acredita que essa recorrência incessante dos designers-pesquisadores pela conceituação advenha do fato de que cada autor precise de início explicitar a sua concepção da profissão e descrever os compromissos que estão implícitos na prática profissional. De fato, concorda-se com ela na medida em que se decide ser a busca da conceituação o primeiro passo para este capítulo.

A origem imediata da palavra design está na língua inglesa, na qual o substantivo design refere-se tanto à idéia de plano, desígnio, intenção, quanto à de configuração, arranjo, estrutura. A origem mais remota da palavra está no latim designare, verbo que abrange ambos os sentidos, o de designar e o de desenhar (CARDOSO, 2004; KOPP, 2004).

Seu campo está constituído por quatro grandes áreas com campos de atuação diferentes, porém, correlatos: o Design Gráfico; o Design de Produtos; o Design de Moda; e o Design de Interiores. Todos se exprimem através de projeto. E como atividades projetuais requerem capacidades de abrangências e de coordenação dos diferentes aspectos implicados no processo que resulta o produto.

Em particular, busca-se neste momento o design gráfico.

Na opinião pública, o design gráfico vem estreitamente associado à capacidade de desenhar. E, tradicionalmente, a sociedade leiga vê essa atividade como apenas um serviço “artístico” (quem sabe uma manifestação cultural) prestado a clientes de diferentes áreas, como o comércio, a indústria, as editoras, as instituições culturais, o governo, etc. Acabando geralmente no juízo – ou preconceito – de que o design gráfico seria nada mais que cosmética, limitando-se a agregar alguns traços decorativos aos produtos. Considerando a produção industrial com as categorias da engenharia, o designer aparece como um especialista em make-up. (GRUSZYNSKI, 2000; BONSIEPE, 1997)

No entanto, esse aspecto apenas “artístico” apresenta ressalvas. Ellen Lupton (apud GRUSZYNSKI, 2000, p.11) ajuda a sair dessa mesmice quando traz um panorama mais amplo do design gráfico dizendo que ele também pode ser visto como uma categoria abrangendo qualquer forma de comunicação em que sinais são rabiscados, entalhados, desenhados, colados, projetados ou de alguma forma inscritos em superfícies.

A noção de codificação de informações é apresentada por Jeremy Ansley (apud GRUSZYNSKI, 2000, p.12), em um manual editado na década de 1980 dirigido a alunos de design:

[...] Em algum lugar, muito frequentemente num estágio intermediário, há pessoas que são responsáveis por codificar informações e idéias, usando padrões, estilos e seqüências que (são) ao mesmo tempo convencionais o bastante para serem entendidas, mas também suficientemente novas para atraírem nossa atenção. É nesse estágio intermediário que o que chamamos de design gráfico acontece.

A construção da atividade do design gráfico sob o pilar da composição, estetização e estilização é tema recorrente em algumas bibliografias, como Villas-Boas (2000, p.7):

[...] design gráfico se refere à área de conhecimento e à prática profissional específica relativa ao ordenamento estético-formal de elementos textuais e não-textuais que compõem peças gráficas distintas à reprodução com objetivo expressamente comunicacional.

Ampliando mais a busca por uma conceituação, encontram-se outras definições complementares que, sem desconsiderar os aspectos de composição, estabelecem uma forte ligação entre o design gráfico e a comunicação. É o caso do ICOGRADA (International Council of Graphic Design Associations), que define o design gráfico como “[...] uma atividade intelectual, técnica e criativa envolvida não somente com a produção de imagens mas também com a análise, a organização e os métodos de apresentação de soluções visuais e os problemas de comunicação”.

E Villas-Boas (2002, p.19) completa esse pensamento dizendo que o design gráfico

[...] é uma atividade expressamente comunicacional que nasce da necessidade de, num ambiente de massas, agregar valores simbólicos a determinados bens, sejam estes concretos ou não. Para tal, lança mão de um instrumental simbólico que se expressa materialmente no plano da visualidade, de forma a veicular estes valores mediante a preservação deste mesmo caráter simbólico.

Frascara (1988) completa que design gráfico se refere ao processo de programar, projetar, coordenar, selecionar e organizar uma série de fatores e elementos para realizar comunicações visuais, produzidas geralmente por meios industriais e destinadas a transmitir mensagens específicas a um determinado grupo. A AIGA (American Institute of Graphics Arts) sugere uma definição ampla para o design gráfico apropriada para o contexto deste trabalho:

O design gráfico é a mais ubíqua de todas as artes. Ela responde a necessidades pessoais e públicas, segue referências tanto econômicas como ergonômicas e é informada por muitas disciplinas incluindo artes e arquitetura, filosofia e ética, literatura e linguagem, ciências e política e performance. O design gráfico está em todo lugar, tocando tudo o que nós fazemos, tudo o que nós vemos, tudo o que compramos: nós o vemos em outdoors e em Bíblias, em um recibo de táxi e em web sites, em certidões de nascimento e em um vale-presente, no vinco circular em uma aspirina e nas páginas de livros infantis de bordas grossas. Design gráfico é a evidência de uma flecha indicativa nos sinais de trânsito ou a sua falta de clareza, tipografia frenética na transmissão de títulos para a Rainha Elisabeth. É o verde brilhante dos logos de NY e a primeira página monocromática do Wall Street Journal. São os expositores de roupas em lojas, selos de postagem e embalagens de comidas, cartazes de propaganda fascista e correspondências sem valor. Design gráfico é a complexa combinação de palavras e imagens, número e gráficos, fotografias e ilustrações que, para ter sucesso, demanda sua elaboração por parte de um particularmente cuidadoso indivíduo que pode orquestrar estes elementos de forma a eles se juntarem para formar algo distinto, ou útil, ou divertido, ou surpreendente, ou subversivo, ou memorável. Design gráfico é uma arte popular e prática, arte aplicada e antiga. De uma forma simples, é a arte da visualização de idéias.

A primeira geração de pesquisadores em design, segundo Cardoso (2004), buscava como prioridade a delimitação do campo de atuação e a consagração da atividade. Os primeiros ensaios modernistas traziam um conjunto de regras de “isto é design e aquilo não” e ainda “este é designer e aquele não”.

Em pleno século XXI, apesar de se observar ainda presente essa cultura pragmática em alguns nichos dentro do design, já se conquistou liberdade e muito se fala em identidade para o design brasileiro. Certamente essa busca caracteriza o perfil dos novos pesquisadores e profissionais em design e também demonstra a mudança de dogmas dos desbravadores na área. É o primeiro passo para o amadurecimento desse recente campo do conhecimento.

Fornecidos alguns limites, que se espera não tenham sido rígidos ou vagos demais, pode-se partir para a compreensão histórica do design gráfico, que será publicada em breve em "A essência do Design Gráfico : Parte 2".

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Referências Bibliográficas, clique aqui!

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Agradecimentos

Os agradecimentos são especiais a todos que contribuíram para que esta conquista fosse alcançada por mim...
Meus pais, Paulo e Marion, e meus irmãos, Bárbara e Luciano, Gustavo e Letícia.
Meu amor, Vitor, pela paciência, companhia e constante incentivo.
Minha incansável orientadora, Gabriela, pela crítica pertinente e envolvimento na pesquisa.
Os amigos que incentivaram, acompanhando de perto e em oração.
As amigas, Ligia Mesquita, Luana Dentice e Vivian Lobenwein, pela amizade especial, incentivo e ajuda na conclusão da graduação.
A Gráfica do TJSC, pelo auxílio em diversos momentos.
O professor Pedro Paulo Delpino, pela companhia, amizade e conhecimentos gentilmente cedidos.
O professor Tiago Moreira, pelo permeio inicial.
O amigo Carlos Alberto Brantes, pelo vasto favor na pesquisa e nas dúvidas.
A Cláudia Azevedo, pela disponibilidade e auxílio.
A Dona Maria, da Biblioteca Pública do Paraná, pela disposição na pesquisa e nas xerocópias.
A Léia Pereira da Cruz, da Biblioteca Nacional, por atender minha pesquisa.
A Jussara, da Biblioteca Setorial do CEART, pelo auxílio nas normas da ABNT.
Aquele que não dorme nem cochila, Senhor, pela força e esperança depositadas em meu coração diariamente.

MUITO OBRIGADA!

Sobre a Pesquisa

Título
Ex Libris : Resgatando marcas bibliográficas no Brasil

Local
Florianópolis, Santa Catarina, Brasil

Ano
2006

Orientadora
Profª Gabriela Botelho Mager, Msc.
Universidade do Estado de Santa Catarina

Banca Examinadora
Profª Gabriela Botelho Mager, Msc.
Universidade do Estado de Santa Catarina
Profº Murilo Scóz, Msc.
Universidade do Estado de Santa Catarina
Profº Pedro Paulo Delpino Bernardes
Designer Gráfico

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